Devemos partir para o casamento com a expetativa de que possivelmente redundará em divórcio?

Diria que, pelo menos, devo partir com a expetativa de que se não fizer nada, ou seja, não desenvolver estratégias de comunicação, escuta ativa, abaixamento dos custos da relação, esse é o desfecho mais provável. Estatisticamente, numa mesa de 6 pessoas, 4 vão divorciar-se. Claro que nunca achamos que seremos nós, mas isso é confundir racionalidade com desejo.

Podemos e devemos atuar na prevenção do divórcio ou pelo menos no impacto que um possível divórcio pode acarretar.

Verdadeiramente, podemos não conseguir diminuir os custos, podemos padecer de alguma dissonância cognitiva que nos impede de operar em ambiente racional, enfim, não controlamos, verdadeiramente, as intenções e as possibilidades do parceiro ou a parceira.

Partir do pressuposto de que é mais provável o divórcio acontecer do que não acontecer, obriga, desde logo, a um empenho superior no contexto da relação tendo em vista, precisamente, o abaixamento dos custos.

Equacionar a hipótese da cessação do casamento não significa desejar que isso aconteça nem aumenta as chances de ocorrência do divórcio, mas é relevante para diminuir o impacto do divórcio – seja numa perspetiva pessoal, seja numa lógica de projeção de efeitos nefastos para outras pessoas, nomeadamente os filhos. Muitas pessoas entendem que “falar de divórcio” é mau, é estar casado e já a pensar no fim. Evitam pensar no assunto. Jamais falar abertamente com o parceiro ou parceira sobre esse tópico. É uma espécie de tabu.

Ademais, regista-se uma certa miopia em relação ao desfecho do casamento. Naquele momento, é tudo flores. Foram feitos um para o outro. É amor para a vida toda, como na canção da Deslandes. Descer à terra, não significa amar menos, estar menos empenhado no matrimónio. Significa ser racional e afirmar um empenho total em fazer durar a relação.